Foi difícil demais lidar com as duas faixas promocionais desse comeback do LE SSERAFIM, e o fato da Coreia até agora não ter colocado “CELEBRATION” e “BOOMPALA” no Top 100 do Melon mostra que eles também estão sofrendo com o que estão fazendo com o grupo. Mesmo assim, fui com alguma coragem e os dois pés atrás na hora de apertar o play no 2º full album delas “PUREFLOW PT. 1”. E assim, pode ser que eu tenha baixado demais as expectativas na hora de ouvir, mas eu achei o álbum bem… tranquilo de escutar? Não é nada grandioso, mas me fez acreditar que ainda existe um grupo de verdade nesse mar de músicas troll que a Source Music anda dando para o LE SSERAFIM ultimamente:

Artista: LE SSERAFIM
Álbum: PUREFLOW PT. 1
Lançamento: 27/05/2026
Gravadora: Source Music
Nota: 65/100
Com o nome do álbum sendo um anagrama para “POWERFUL”, o PUREFLOW é conduzido pela frase “Sou destemida e, portanto, poderosa” do clássico Frankenstein, aquele espírito livre e sem medo do debut do LE SSERAFIM com “FEARLESS”. Um grupo que olha para seu passado e, nesse álbum, propõe se reinventar através da experiência adquirida em todos esses anos, aceitando suas ansiedades e medos. Com essa definição em mente, chega a ser engraçado como o PUREFLOW parece não ter objetividade, transitando em diversos estilos musicais e sendo poderoso em poucos momentos.
Essa irregularidade e confusão entre a intenção e a execução é anunciada já nas faixas promocionais, tentativas sem vergonha de emplacar 20 segundos em uma dancinha viral de TikTok. Ok, a indústria pop atual é, basicamente, um bando de tentativas de emplacar uma dancinha ou trecho viral nas redes sociais, mas é legal quando isso vem acompanhado de uma música que tenta ir um pouco além disso e, infelizmente, “CELEBRATION” e, principalmente, “BOOMPALA” não fazem isso. Além disso, são duas faixas que tem a proposta de serem os momentos mais caóticos e efusivos do “PUREFLOW”, mas não passam de fogo de palha que me entedia como ouvinte.
O curioso é que, passada a raiva que eu passo com as faixas principais, o “PUREFLOW” é um álbum bem aproveitável até. Quer dizer, é meio confuso os interlúdios do álbum induzirem uma abordagem mais rock de garagem com pouca coisa no álbum apostando nesse caminho, mas as melodias mais seguras e estilos musicais mais redondinhos nas faixas que compõem o álbum fazem o PUREFLOW ser sutilmente mais simpático. O LE SSERAFIM se destaca quando soa mais familiar e segue o fluxo do house em faixas como “iffy iffy” e “Saky”, ou permite ter mais vibração em faixas como “Creatures” e “Trust Exercise”. Nada aqui é glorioso ou mudará a sua vida ouvindo, mas esperava dar de cara com coisa pior levando em conta os singles E o histórico de EPs medianos para ruins que o LE SSERAFIM desovou ultimamente.
O PUREFLOW não é um álbum que merece grandes elogios, mas também não é a pior experiência que tive ouvindo um álbum de K-pop e está até bom para um álbum do LE SSERAFIM. É uma pena que as duas faixas principais assustam e derrubam a experiência do projeto como um todo mas, desconsiderando elas, o álbum se torna um álbum básico que passa sem grandes desastres. Existe um álbum aceitável nesse comeback do LE SSERAFIM, mas isso acaba sendo ofuscado pela HYBE estar nessa eterna mania de viralizar seus grupos na internet através de odiosas tentativas de músicas descoladas para #xovens das redes sociais.
Faixa a Faixa
O álbum começa com a intro “Pureflow”, que traz o que já virou praxe nos álbuns do LE SSERAFIM: Uma intro que não tem nada a ver ou introduz alguma coisa do álbum, servindo um punkzinho mais leve de garagem e uns versos falados sobre descobrir a força de seus verdadeiros sentimentos. É a intro menos chocante dos álbuns do LE SSERAFIM, mas ainda consegue ser melhor que os dois singles do álbum.
“BOOMPALA” e “CELEBRATION” possuem o mesmo objetivo e sofrem do mesmo problema: São músicas feitas para fritar sua cabeça com ganchos chicletes e batidas frenéticas, mas o grupo não parece ser desprendido o suficiente para fazer ambas serem insanas e o resultado final acaba não chegando a lugar nenhum. “CELEBRATION” vai por um caminho techno com um instrumental que, por si, é mais interessante e funciona, mas a música fica num mornaço esquisito sem um grande e necessário momento de explosão. Já “BOOMPALA” é só tediosa mesmo, com versos desinteressantes, refrão irritante e uma repetição chatíssima. Um grande desperdício de sample de “Macarena” no que eu já considero um dos piores singles do grupo.
As coisas começam a melhorar com “Creatures”, um pop/rock carismático, com uma energia anos 2000 descolada e uns toques eletrônicos que dão personalidade para a música. É a 1ª vez que essa performance mais cool do LE SSERAFIM funciona nesse álbum, e o refrão mais enérgico dá vida para a música. O final com elas repetindo “I make your head bang” por 45 segundos é o ponto fraco da música e dá a impressão de que ficaram sem ideias para preencher um instrumental de mais de 3 minutos, mas nada que derrube muito a 1ª música boa do Pureflow. “iffy iffy” é um housezão moderno e atmosférico que não tem onde errar, sendo ótima tanto para servir muito carão e pose quanto apenas sentir a vibe e transcender na pista de dança. Nada de muito impressionante pelo que a gente já viu de house music no K-pop, mas é um número gostoso de ouvir e grower que vira queridinha dos homossexuais com o tempo.
“Need Your Company” é um interlúdio que desacelera o álbum numa baladinha rock. Se você ouvir a intro e essa interlude, pode JURAR que tem uma tracklist rock mais sentimental e vulnerável abalando corações por aí ao invés de um tosquíssimo “boompala boompala eh” em loop, mas esse interlúdio, pelo menos, nos prepara adequadamente para o pop mais lento e sensível “Sonder”. É um conjunto fofo, que traz um lado mais cru e vulnerável do LE SSERAFIM, e “Sonder” toma umas ousadias vocais mais sentimentais que a gente não tinha visto nesse álbum, mas é bem fillerzão na tracklist.
“Saki (feat. Aliyah’s Interlude)” é apresentada como uma continuação a “1-800-hot-n-fun”, trazendo um pop mais descolado e com referências 2-step e house durante a produção. O refrão é uma delícia e a atitude do grupo e da Aliyah’s Interlude nele é o melhor momento isolado do álbum. O resto da música é uma graça, adoro as aparições do teclado durante a faixa e tem um ritmo envolvente que valoriza essa interpretação mais suave e desprendida do grupo. Junto com “iffy iffy”, são os grandes destaques do álbum.
“Irony” é o funk sendo exportado para o mundo através das batidas do Tropkillaz, caindo no colo do LE SSERAFIM dessa vez. O instrumental no geral é legal mas senti falta de uma agressividade, um atrevimento na performance que o grupo parece não ter. Algo que fuja desse jeito blasé e seja mais malemolente para eu querer descer até o chão ouvindo, sabe? O LE SSERAFIM é muito pressão baixa para sustentar essa batida sozinho. “Trust Exercise” é o popzinho Sabrina Carpenter do álbum, meio retrô e mais cadenciado para ouvir de forma descompromissada e relaxar no fim do álbum. Não faz muito por mim, mas parece ser a música que mais cola como viral de TikTok do álbum (O que é irônico, se pensarmos na apelação que são os dois singles do álbum nesse sentido). Fechando o álbum, “Liminal Space” é um outro que começa com as integrantes conversando entre si durante 1 minuto até ganhar uma melodia com a distante bandinha rock na segunda metade do álbum.
Concluindo…
Deus queira que a parte 2 do PUREFLOW seja mais ambicioso e assertivo em suas produções no geral, mas essa parte 1 não é de todo mal. “PUREFLOW PT. 1” é um álbum que existe da forma mais mediana possível e, a essa altura do campeonato, já é muito mais do que espero ouvindo qualquer coisa do LE SSERAFIM.