Atendendo a mais um pedido por pix que estava na fila para ser feito, mais uma recomendação de álbum: “Nocturnal”, último álbum do girlgroup japonês Tokyo Girls’ Style lançado em 2022. Porém, diferente do público mais novinho e antenado nas tendências eletrônicas que a i-Rohm atingiu com o “Usually”, o “Nocturnal” busca o público mais velho, que compreenda o Tokyo Girls’ Style como um grupo maduro, com referências vintage e mais refinado que um grupo idol japonês comum. Isso resultou em um festival de músicas disco e city pop que só um homossexual com gosto de tiazona de 45 anos poderia curtir, então É CLARO que escolheram minha pessoa para divulgar esse trabalho. Sem mais delongas, vamos ver o que o Tokyo Girls’ Style entregou aqui:

Artista: Tokyo Girls’ Style
Álbum: Nocturnal
Lançamento: 03/08/2022
Gravadora: Avex Trax
Nota: 82/100
“Nocturnal” foi o primeiro álbum do Tokyo Girls Style em 7 anos e o segundo álbum do grupo depois de anunciar sua “graduação” do mundinho idol japonês. Não faço a menor ideia do que o grupo lançou antes desse álbum para ter uma noção do quanto elas mudaram e/ou evoluíram da fase idol para a fase artistas, mas dá para sentir que “Nocturnal” é uma espécie de amadurecimento do Tokyo Girls Style enquanto grupo pela exploração de gêneros mais “adultos” (= Tem muita referência city pop rolando nesse álbum) e um pop japonês mais contemporâneo que se apoia mais nas emoções que o grupo pode entregar vocalmente do que no carisma habitual de um trabalho idol. Não significa que o “Nocturnal” é o Tokyo Girls Style abandonando o lado idol pois um álbum que você sente o esforço em mostrar um lado mais maduro de um girlgroup, ainda mais com o background de “idols graduadas” que elas carregam.
Pelo nome eu esperava que “Nocturnal” fosse algo mais dark e pesado, mas acabei recebendo um álbum mais delicado, refinado e animado com sons coloridos retrô. Mas elas explicam muito bem o nome, com o tema do álbum sendo “músicas para ouvir durante uma noite sem sono”. É um álbum noturno mas não no sentido mais pesado e escuro, e sim um álbum que traz uma mistura adorável de todo o brilho e vivacidade que uma noite disco/funky pode proporcionar com faixas mais maduras e honestas para você ouvir enquanto pensa na vida encostado na janela do Uber 11 horas da noite. Uma mistura de vocais mais sóbrios com produções retrô dançantes e uma energia e melodia mais nostálgicas dando todo um charme para o conjunto da obra.
Esse esforço em ser um grupo adulto rende um ótimo trabalho, especialmente para os entusiastas de música retrô e ouvintes da rádio Antena 1. Algumas músicas até tentam soar menos “música de vinil” com uma ou outra ideia mais “J-pop contemporâneo”, mas os melhores momentos do “Nocturnal” são quando o álbum assume uma forma totalmente vintage, e esse charme de “música velha” que as emulações de pop japonês dos anos 80 é encantador. Trazendo não só estilos que a música japonesa entrega muito bem como uma sensação nostálgica que só o J-pop dos anos 80 e 90 proporciona, “Nocturnal” funciona como uma viagem elegante e adorável para 40 anos atrás.
No atual cenário de álbuns “versáteis” e instantâneos da música pop, um álbum de de inéditas com conceito mais linear e quase uma hora de duração parece surreal, mas essa “exceção” criada pelo Tokyo Girls Style é extremamente positiva. “Nocturnal” é um exemplo muito bom de álbum de “ex-idols” japonesas: Todas as músicas mostram um grupo maduro e sóbrio explorando sonoridades de outrora. Ainda tem uma essência idol ali (algumas músicas facilmente seriam lançadas por algum girlgroup do hello project atual), mas é um pop mais “sério” e menos jovial, com o Tokyo Girls Style praticamente te levando para a Tóquio dos anos 80 através desse álbum. Um conceito sólido e uma execução adorável, criando um trabalho reconfortante e perfeito para deixar rodando no fone do início ao fim.
Faixa a Faixa
O álbum começa com uma intro que existe para introduzir (duh) tudo que rola no álbum em 1 minuto e meio, desde os instrumentos pop mais orgânicos até os sintetizadores city pop. “Viva La Koigokoro” é a faixa que melhor transmite a mistura de um som nostálgico com uma produção funky mais atual no J-pop. O tom mais tranquilo e confortável na interpretação do grupo dá o tom para todo o álbum, e em “Viva La Koigokoro” isso é adorável. “Strawberry Float” mantém essa ideia mas indo para um lado mais disco e midtempo. Quando joguei essa música no YouTube apareceu um mashup dessa com “Got To Be Real” da Cheryl Lynn e UAU, provavelmente essa foi a referência que a música buscou ter mesmo pois lembra uma versão mais soft desse grande hit disco mesmo.
“Kono Ame ga Agatte mo” traz a banda e instrumentos para essa experiência vintage em um popzinho quase que emulando os anos 60 que me lembra muito a cantora chay mas, dentro do álbum, soa meio deslocado, como se pertencesse a outro projeto. Longe de ser uma música ruim, mas os grandes momentos do álbum são realmente as faixas mais disco e sintetizadas, e “Kono Ame ga Agatte mo” acaba sendo eclipsada. Vale o play por ser uma música boa, mas perde um pouco do brilho dentro do álbum. “Corner Cut Memories” é a primeira faixa “Hello Project” do álbum, um trabalho mais dançante e jazzy que qualquer girlgroup do Hello Project atualmente lançaria (Juice=Juice seria a minha aposta se essa música caísse no colo do Tsunku)… E isso é um elogio pois esse é o estilo que rende as melhores músicas daquela empresa há uns bons anos. É também um dos poucos momentos mais intensos do álbum, que não é exatamente dançante e vai para um lado mais tranquilo, “sinta a vibe” e beba algum álcool enquanto ouve. “Yume no Naka ni Tsuretette”, por outro lado, é um city pop quase que puro e os entusiastas do estilo vão viver por essa música. Para mim, um dos grandes destaques do “Nocturnal”.
“Hello, goodbye” é a música mais “jovem” do álbum, no sentido de ser um pop mais fofinho e jovial que uma Kana Nishino lançaria como tema de algum drama romântico japonês que viraria um dos maiores hits do ano, seja pela popularidade do drama ou pela popularidade da Kana Nishino (Para o azar da música, foi lançada por um grupo que vende 2k por álbum). Adorável, mas cai no mesmo problema de “Kono Ame ga Agatte mo” de soar deslocada pelo que o “Nocturnal” entrega de melhor no conjunto da obra. “Dear Mama” soa como uma b-side de “Hello, Goodbye” com a mesma, estilo semelhante e que acaba chegando no mesmo lugar com os mesmos problemas, só que mais filler em comparação. Esse meio de álbum tem uma energia mais idol no sentido de ser aquele pop japonês mais teen, leve e sing along que facilmente serviria como trilha de um romance adolescente no Japão, mas a proposta do álbum é de “músicas para se ouvir durante a noite” e não tenho vontade de ouvir alguma dessas voltando do trabalho ou deitado na minha cama depois de um dia estressante.
Depois dessa pequena fase filler o álbum volta ao retrô com “Girls Talk”. Mais especificamente, volta ao disco de uma forma super estilosa, quase que feita para as passarelas de um Tokyo Girls Collection da vida. O instrumental é delicioso, os vocais combinam muito bem com a produção e o ligeiro “rap” foi uma grata surpresa. Essa música seria ainda mais emblemática se tivessem se jogado mais no autotune para fazer uma faixa disco retrofuturista, mas entendo a proposta mais vocal que o grupo quis passar com esse álbum. “Friday Night” é mais uma faixa Hello Project (Tranquilamente um follow up para Hai to Diamond do BEYOOOOONDS) e, mais uma vez, é um super elogio. Os produtores mais old school/wannabe old school japoneses tem um bom gosto na hora de fazer esses números disco mais vibrantes e carismáticos, e “Friday Night” é exatamente isso: Um número divertido, dançante e que tira um sorriso do meu rosto ouvindo. Aquele meio de álbum mais filler poderia ser feito de músicas disco/funky como “Friday Night” que deixaria o álbum ainda mais memorável para mim.
O final do “Nocturnal” é mais comum com um popzinho de banda acústica em “Boku wa Usotsuki” e um popzinho midtempo mais jazzy em “days ~Kimi Dake ga Inai Machi~”. Ambas contribuem para toda a energia mais reconfortante do álbum e despertam bons sentimentos ouvindo, mas não são as coisas mais impressionantes que um final de álbum pode oferecer. É carismático e competente, e isso já é o suficiente. Fechando o álbum temos um remix de “Wa.Ga.Ma.Ma” trazendo o city pop de volta e, de certa forma, se conectando com a intro para fechar o círculo e você terminar o álbum com o mesmo carinho que começou. É um final interessante que me faz ter vontade de ouvir o “Nocturnal” desde o início, e isso vai criando um apreço que só fez o álbum crescer comigo desde a primeira vez que ouvi.
Concluindo…
Tem álbuns que somente nós, velhas e velhas de espírito, saberemos apreciar, e “Nocturnal” é um desses álbuns. Quem largou a onda do City Pop não deve sentir nada demais ouvindo esse álbum, mas eu mesmo já quero andar pela avenida paulista enquanto esse álbum toca no meu fone e eu penso em amores que não vivi.
Quem mandou isso? Achei que só eu escutava tokyo girl’s style aqui no Brasil!