ALBUM REVIEW: IU – Modern Times

Seguindo com a sequência de álbuns icônicos da década passada no K-pop ganhando posts patrocinados por pix, vamos agora para mais um grande exemplo de álbum conceitual dentro da indústria coreana, mostrando o empenho de todos os envolvidos em criar algo emblemático, imponente e autêntico, que brilha como um álbum que não é qualquer um que faria. E, realmente, ninguém no K-pop se atreveu a ir tão longe para reinventar a sua imagem e personalidade artística no K-pop quanto a IU foi com o “Modern Times” (Conceitualmente até foi — e no mesmo ano, inclusive — , mas terei oportunidade de falar do “Monochrome” da Lee Hyori em outro momento).

Artista: IU
Álbum: Modern Times
Lançamento: 08/10/2013
Gravadora: LOEN Entertainment
Nota: 95/100

Existe uma carreira da IU antes e uma carreira da IU depois do “Modern Times”. Antes, a irmã mais nova da nação era… Bem, a irmã mais nova da nação, com músicas fofinhas, inocentes, que moldam uma imagem e sonoridade pura e jovem como tem que ser. Não é preciso dizer que deu muito certo, com REAL (E o relançamento REAL+) e Last Fantasy sendo dois dos álbuns mais baixados e consumidos pelos coreanos, assim como colecionou diversos smash hits que colocaram a IU em outro nível de popularidade e importância para o K-pop. Porém, com uma nova geração de artistas surgindo e a IU virando veterana, a ideia de “irmã mais nova” não colaria e chegava a hora de fazer uma mudança de imagem na carreira da cantora. Então, em 2013, tivemos o “Modern Times” transformando a “irmã mais nova da nação” em “irmã mais velha da nação”.

Álbuns retrô não são exatamente novidade. O JYP construiu toda uma história de girlgroup retrô para o Wonder Girls, muitos girlgroups já lançaram conceitos retrô entre estilos mais pin-up/musical dos anos 60 até ideias de disco music e synthpop oitentista que perduram até hoje no K-pop, mas acho que ninguém nunca foi surpreendentemente tão longe nas referências quanto a IU. Todas as sonoridades jazz, bossa nova, latin pop que o K-pop vez ou outra usa como referência para uma música pop ganham outros níveis de fidelidade nas mãos da IU, como se a gata tivesse uma coleção de vinis antigos e ouvisse apenas clássicos dos anos 30 e 40 em sua playlist, o que conversa não só com a evolução musical da IU como com o que é ser um jovem sul coreano naquela época.

O nicho de jovens adultos na Coreia não se importava exatamente com o K-pop em 2013 e gostava mais de resgatar gêneros mais “velhos” e tradicionais, especialmente para o karaokê. Era bem mais fácil esse jovem coreano metafórico de 2013 ouvir uma música do Tom Jobim do que algum smash hit de qualquer grupo do K-pop, e esse jovem provavelmente teve orgasmos ouvindo o “Modern Times”. O conjunto da obra não é tedioso quanto um álbum com a ideia de “resgatar velharias do tempo da sua avó”, é radiofônico e com uma versatilidade de estilos musicais que casam muito bem na tracklist, criando um trabalho rico, encantador e que te faz viajar no tempo. A IU é essa jovem pedante com referências velha guarda, e viu uma oportunidade de usar essas referências e ser artista nesse álbum.

Nem tudo no “Modern Times” funciona comigo, mas é inegável que a curadoria para a criação do álbum é impecável. Chega a ser espantoso como uma garota de 20 anos tem um gosto tão antigo para música, e todas as músicas trazem o vocal doce e confortável característico da IU de um jeito bem mais vintage, me dando a sensação de que ela é uma grande diva dos anos 40 mesmo. Falando em vocais, o “Modern Times” traz algumas das performances mais ousadas da IU, seja para acompanhar as parcerias que algumas músicas possuem ou simplesmente para elevar essa ideia de maturidade na carreira da cantora. Em nenhum momento o álbum soa forçado ou pretensioso demais, pois ela sabia muito bem o que fazer para cada música nesse CD parecer ser tocado na vitrola da sua avó.

Faixa a Faixa

O álbum começa com “Love Of B”, em parceria com o violonista Park Juwon, algo que merece destaque por ser uma música, basicamente, voz e violão, e não ser uma chatice acústica como praticamente TODA música voz e violão costuma ser na Coreia. Pelo contrário, introduz bem o espírito velha guarda do álbum com um jazz em seus primórdios, muito ritmo e estilo (O solo de violão nessa música é algo que entra para a história dos guitarristas acústicos no mundo), além de ser uma música que mostra uma maturidade significativa nos vocais da IU em comparação com os trabalhos anteriores. Não sei se sozinha é uma música icônica, mas conquista no simples e é uma abertura perfeita para o álbum.

Essa maturidade e mudança de direção na performance da IU ficam ainda mais realçados nas próximas duas faixas. “Everybody Has Secrets” é uma faixa que dispensaria apresentações em outros tempos, mas para as bebêzinhas da fanbase que acham que NewJeans é o suprassumo das referências retrô: A parceria entre IU e Gain é descrito um jazz latino influenciado pela gafieira, samba e outras brasilidades da década de 30, e se destaca pela tensão lésbica que as duas exalam cantando uma música sobre todos nós termos segredos. Possivelmente a melhor música da carreira da IU, Top 3 melhores músicas da Gain e Top 3 melhores colaborações femininas do asian pop. Já “Between The Lips” é mais travessa, como se aquela jovem garota fosse aprontar algo bem sapeca enquanto caminha pelas ruas de algum filme musical dos anos 50, com um piano conduzindo de forma lenta e passional a produção da música. Essas duas músicas entregam uma IU mais sexy, provocante e quente como estilos totalmente fora da caixa que você JAMAIS pensaria ver ela sendo em 2013 (E, dados os últimos trabalhos da IU, ela JAMAIS pensaria em fazer em 2025).

E aí vamos para o grande single do álbum “The Red Shoes”, que é “Good Day” só que retrô. Eu não engajo muito em “The Red Shoes” por soar muito requentada para mim, mas a releitura dada para a música é brilhante, transformando uma soundtrack de musical da Disney em soundtrack de musical da Broadway de uma forma muito perfeitinha e sing along. É impossível você não ouvir esse “summertime” sem cantar junto, e tenho que dar méritos para isso. “The Red Shoes” traz toda a magia de irmã mais nova da nação sendo executada como se a IU fosse a irmã mais velha da nação. “Modern Times” é o auge da velhice da cantora nesse álbum, com referências jazz do início do século XX e referências claras ao Charles Chaplin, com foco no filme Tempos Modernos. Você ouve essa música e sua visão fica imediatamente preto e branco, sua voz some e sua comunicação é feita por placas transcrevendo o que você diz em um filme mudo. Uma pena essa música não ter um MV inspirado nisso (Assim como é uma pena todos os teasers do Modern Times não terem MVs completos).

Se tem um “ponto fraco” no álbum que me impede de dar nota máxima para o álbum, são as baladonas. “Bad Day” tem vocais adoráveis e uma melodia que fica interessante ali pela segunda metade quando a banda ganha protagonismo junto com a orquestra no instrumental, mas tem dois problemas aqui: Por conta própria é uma balada que demora demais para engrenar, e a obra parece uma balada para qualquer álbum da IU. A grande graça do “Modern Times” é o quanto ele pode te transportar para diferentes eras e gêneros mortos do mainstream, e “Bad Day” fica devendo nesse sentido. Uma balada bonita, mas bem tanto faz. O álbum logo volta aos eixos com “Obliviate”, sendo a primeira incursão da IU com a Bossa Nova e um dos melhores trabalhos de um artista coreano com um ritmo brasileiro. Temos drama, temos emoção, temos uma garota querendo se reerguer diante de momentos de dor e uma IU clamando por sua Maria tal como grandes ícones da música como Ayumi Hamasaki, Hwasa e Viviane Araújo. Você tem que ser muito boazuda para não fazer de uma bossa nova a coisa mais letárgica do seu álbum pop, e a IU foi essa boazuda.

“Walk With Me, Girl” é uma bossa nova mais tradicional, com IU chamando o Tony Bennett da Coreia antes da Lady Gaga inventar o conceito de ter o seu Tony Bennett. A IU acaba sendo engolida pelo velho que tem uma voz chocantemente ideal para esse tipo de música mais marcada pelo violão, e também pelo próprio violão no instrumental em mais um trabalho grandioso do Park Juwon, mas eu sinto que isso foi proposital? Acho que ela sozinha não teria o charme para uma bossa mais lenta, então deixa o Choi Baek-Ho brilhar e as partes dela soam como se fosse uma “espectadora de luxo”. “Havana” é a mais fraca do trio de músicas bossa nova do álbum, mas tem seu charme e é muito divertido ouvir essa música em um dia ensolarado. O violino no início não entrega muito, mas “Havana” fica mais relevante quando o ritmo começa a ganhar forma, vai por mim.

“A Gloomy Clock” e “Daydream” são duas faixas lentas e minimalistas que não fazem muito por mim. “A Gloomy Clock” peca na simplicidade que limita até as possibilidades de interpretação da IU e do Jonghyun nessa faixa, pois esse instrumental que fica nisso de “uma aparição de instrumento por vez” parece não levar a música a lugar nenhum, e “Daydream” é baladinha coreana 101 com um toque folk no instrumental e nos vocais charmosos de fumante da Yang Hee-eun. Tem um charme retrô nessas baladas que dá para forçar como parte do conceito do álbum, mas não sei se tenho esse empenho todo para tal. Fechando o álbum temos “Wait”, que é o momento “Let loose” do álbum, misturando todas as referências retrô do álbum em uma base eletrônica mais envolvente, na qual metade da música é só o instrumental enlouquecendo e a outra metade é a IU cantando, basicamente, que não é mais a queridinha da nação e está esperando pelos olhares menos amistosos do público, pois agora é a hora da IU aparecer como artista. O Modern Times ainda conta com a versão coreana de “Voice Mail” (Sabia que a IU teve uma carreira no Japão? Pois é menina) que soa completamente off do álbum, e apropriadamente é chamada de bonus track.

Concluindo…

“Modern Times” é um álbum que você termina de ouvir sem acreditar que alguém no K-pop seria capaz de fazer algo assim (Ainda mais a IU de 2013). Não só é um dos álbuns mais únicos dentro do K-pop, como também a melhor forma de mostrar como a IU é muito mais do que a irmã mais nova da nação.


Esse post foi bancado por um gostoso pix para fazer esse review para o delicioso álbum da IU. Se você quiser fazer que nem nesse post e me ajudar a pagar as contas em troca de algum post safadíssimo sobre asian pop, ou só quer agradecer o tempo que dedico trazendo entretenimento para a fanbase, pode mandar um PIX com o valor que seu coração achar que eu mereço para a chave: dougielogic@gmail.com. Você também pode seguir o blog nas redes sociais: InstagramBluesky e Twitter (x).

13 comentários sobre “ALBUM REVIEW: IU – Modern Times

  1. Ela é muito boa, não é à toa que é a maior solista da Coreia. A surra na tidinha da Taeyeon.

    E obliviate melhor do álbum

    • uma é apenas uma idol que se tornou solista, iu sempre foi uma solista, nunca dividiu atenção com 8 garotas no palco com uma linha de menos de 30 segundos.
      o que a taeyeon fez é raro, conseguir se solidificar como solista sendo apenas uma idol de um grupo gigante na geração mais talentosa do kpop é quase uma loteria.. voce conta nos dedos idols de grupo de kpop que conseguem vender alguma coisa sem precisar do grupo de origem ativo/mantendo a relevancia do idol em questao

    • Taeyeon sendo muito bem sucedida tanto em grupo quanto em carreira solo. Surra é o que ela dá na PutIU vocalmente e em termos de performance.

      • E finalmente o dia desse Review chegou. Esse álbum é a demonstração que o Kpop não é só fórmula e música enlatada. Não é a toa que a IU é uma das maiores solista daquele pais. Não consigo imaginar ninguém fazendo algo parecido hoje.

        Esse é meu álbum favorito do Kpop, e meu segundo álbum favorito da vida, ficando atrás apenas do Fantome de Utada Hikaru.

  2. O clipe de The Red Shoes é inspirado em um filme britânico lindíssimo dos anos 40 de mesmo nome, sobre uma bailarina que calça essas sapatilhas vermelhas que dançam por si só e a levam a exaustão onde ela precisa decidir entre a vida artística e o romance verdadeiro.

    lindo lindo lindo filme

  3. um dos álbuns que faz a gente lembrar que o k-pop não é 100% manufaturado e tem muita gente que ainda quer fazer arte.

    como não tem mais nada que possa ser dito sobre o álbum que o próprio post já não tenha falado, eu só quero dizer que, além de talentosa, a iu é muito inteligente.

    não só ela sabe que canta bem, mas sabe do que o coreano médio gosta de ouvir, sabe ser autêntica (twenty-three) e consegue crescer artisticamente ao mesmo tempo que entrega o que o mercado quer, não é por acaso que red shoes não se distancia tanto do maior hit dela e que ela só meteu baladões e midtempos como singles do palette.

  4. Esse álbum é perfeito.
    Modern Times e Palette os melhores álbuns da IU e meus favoritos.
    Já perdi a conta de quantas vezes ouvi.
    Pena que a queen não tem mais tanto empenho e não faz mais álbuns como esses.

  5. Eu amo The Red Shoes, o jeito que essa música cresce é arrepiante, o refrão final que ela canta com toda a alma, nossa, para mim a melhor dela, surra muito a grito três oitavos, e faz uma batalha dura com You&I, o álbum eu ouvi todo um pouco antes da Review do Lunei, é um álbum muito bom, de uma artista de verdade.

  6. Sou muito apegada ao Modern Times. Pra mim ele e o chat-shire (que é um mini-album) são os pontos altos da carreira da IU.

  7. jieun é extraordinaria. assusta perceber que ela é mais nova que a irene do red velvet como pode ser tao mais talentosa e inteligente

    • ??? amor, antes de fazer comparações nada haver, lembra q a iu tbm é mais nova q a jessica jung vendedora de bazar, como pode uma jovem ser tão mais bem sucedida e querida do q a cobrajung q não prestou nem pra fazer parte de grupo, e nem pra ser design de roupas

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