Se tem uma pessoa que eu esperava investir em um álbum versátil e de múltiplas sonoridades no K-pop, esse alguém era a Sunmi. Com toda a ideia de “Sunmi Pop” que ela construiu ao longo de todos esses anos de carreira solo, eu esperava que o 1º full album (Que levou tempo demais para sair, né?) atirasse em tudo quanto é lado, entregasse músicas fortes em diferentes estilos e mostrasse para o K-pop como é que se faz álbum/playlist. Daí que tivemos o lançamento do “HEART MAID” na última semana e, embora a minha expectativa estivesse correta, a Sunmi fez isso de um jeito que não só funciona bem individualmente, como também na tracklist de um álbum (Ou na tracklist de 2 EPs amarrados em um 1 Full Album):

Artista: Sunmi
Álbum: HEART MAID
Lançamento: 05/11/2025
Gravadora: ABYSS COMPANY
Nota: 80/100
“HEART MAID” tem uma base meio “comum”: Primeira metade do álbum mais dançante, colorida e alinhada ao conceito mais “esquisitinho” e dark, um interlúdio para virar a chave e a segunda metade menos “personagem” e mostrando um lado mais honesto da Sunmi. A primeira metade do álbum te faz embarcar com tudo na ideia de filme de terror que a Sunmi cria com as músicas, enquanto a segunda é mais vulnerável e tenta te conectar com os sentimentos mais vulneráveis da cantora. Quem acompanha pop asiático (Ou já ouviu qualquer álbum da Koda Kumi) sabe que não é incomum um álbum com conceito mais forte tomar outro rumo (Ou simplesmente abandonar o conceito) no meio da tracklist, mas a Sunmi amarra tudo isso como um álbum sentimental que, de um jeito mais caótico ou íntimo, acalme e conforte o coração de quem ouve.
O ponto forte do álbum está nos momentos em que a Sunmi bota uma cor mais excêntrica nas faixas pop, e isso se concentra na primeira metade do álbum. Vocalmente falando, ela possui um timbre bem característico que valoriza faixas com um som menos “fórmula pronta”, e a gente vê como músicas como “CYNICAL”, “Sweet Nightmare” e “Mini skirt”. Tem uma coisa mais imprevisível que você fica curioso em ouvir como a Sunmi vai cantar nele, e o resultado nesse álbum é sempre encantador. A Sunmi não é uma cantora de notas muito altas, mas é criativa o bastante para servir vocais à sua maneira, e até mesmo em faixas mais simples como o synthdisco “DDU DDU” a Sunmi consegue imprimir essa personalidade dela como performer. Essa força aparece menos na 2ª metade do álbum, que se propõe em ter sons mais limpos e polidos, mas ainda dá as caras em faixas como “Bath” e “A long long night”.
O problema do “HEART MAID” é que a 1ª metade do álbum (Que é catchy e desperta uma vontade de deixar tocar de fundo e dançar) é claramente mais cativante que a 2ª (Que depende mais do seu humor para querer ouvir). O álbum não tem uma música ruim de fato, mas depois de “bass(ad)” ele dá a sensação de que o fôlego está sendo perdido. Tanto que o álbum fica mais interessante no aleatório, onde as músicas se misturam e criam uma roleta russa de emoções e humores, e acho que o “HEART MAID” se beneficiaria com essa tracklist menos dividida — além de vender por completo a ideia de “caos minimalista” proporcionada pela faixa principal. Do jeito que está, a Sunmi meio que diz “escolha seu lado” e você avalia o que o seu coração quer ouvir no momento.
Em todo o caso, “HEART MAID” traz a sensação de dever cumprido. É um álbum sólido, que traz a identidade da Sunmi, vocalmente único e com faixas boas a muito boas em seus respectivos propósitos. A Sunmi que consegue sustentar e entregar qualidade em diversos estilos musicais está nesse álbum, mas de uma forma muito mais fiel ao que ela é hoje como artista. Talvez não seja O álbum que mude a sua vida depois de 6 anos de promessas e 12 anos de carreira solo (E ali pelo final o “HEART MAID” meio que fica disperso com faixas menos relevantes), mas definitivamente muda a vida da Sunmi e a coloca em um outro patamar como solista de K-pop.
Faixa a Faixa
O álbum começa com a intro “MAID”. Umas batidas pop eletrônicas afiadas e uma performance de gata emocionalmente instável acompanhando o ritmo do instrumental introduzem toda a energia excêntrica e um pouco creepy que o álbum tem. Uma intro pensada para ser intro, e você sai animado com o que pode vir a seguir. “CYNICAL” é a Sunmi traduzindo a sua atual persona alternativa e hipster em um trabalho mais pop, com sintetizadores trazendo a comadre de volta para a zona de músicas mais dance mas com a interpretação única e hipnótica da Sunmi trazendo uma rebeldia e um cinismo peculiar para uma música coreana padrão. Sunmi é a atual gata diferentona do K-pop atual, e “CYNICAL” mostra isso em sua melhor forma.
“Sweet Nightmare” deixa a ironia de lado para trazer um pop/rock de bandinha indie mais sentimental, apostando na simplicidade e suavidade mas sem perder esse clima dark gostoso que o álbum criou com as duas primeiras faixas. Gosto do ritmo e versos mais rápidos que a música possui e o refrão é uma graça dentro do conjunto. É esquisito achar essa faixa fofa? Talvez, mas é isso. “DDU DDU” volta com os sintetizadores com tudo, em um synth disco que desperta a nostalgia daqueles que queriam viver as pistas de dança nos anos 70 e 80. É a música mais dançante do álbum porque é apenas a Sunmi encontrando seu lugar mágico e querendo dançar com VOCÊ, e você quer dançar com a Sunmi (E, quem sabe, relembrar os tempos de Wonder Girls?). Despretensiosa, divertida e super fácil de curtir e se deixar levar pelos synths.
“Mini skirt” é basicamente uma música interessante da IU indo parar no colo da Sunmi, tanto na produção pop mais sapeca quanto na letra atrevidinha e levemente sexual sobre olhar ela de minissaia, e até a interpretação da Sunmi parece uma versão vocalmente mais soft da IU nos tempos de Chat-shire. É uma música provocante que te deixa curioso e excitado para ver onde vai chegar, e a parte final adicionando um drama mais rico no instrumental é glamuroso. Junto com “DDU DDU”, são os dois grandes destaques das album tracks para mim. “Tuberose” é a música mais assumidamente sexy do álbum, daquelas que dá vontade de tirar a roupa conforme o instrumental rola e deixa o tesão dominar a sua mente em cada aparição mais agressiva da guitarra ou quando a Sunmi só fica ali gemendo na música. Nenhuma até aqui passa de 3 minutos de duração, mas foi a primeira vez que senti que poderia durar mais, pois uma ponte aumentando essa libido e um refrão final explodindo com a banda de jazz e a guitarra duelando destaque enquanto a Sunmi canta no ápice do desejo deixaria “Tuberose” perfeita (Mas já está muito boa do jeitinho que é).
“Bass(ad)” é um interlúdio que basicamente está ali para dizer que a parte de músicas com mais destaque na guitarra chegou, sem querer dizer que a atmosfera mais escura deixada na primeira parte do álbum volte a aparecer aqui. A sequência dos dois últimos singles da cantora antes do álbum, “BLUE!” e “Balloon In Love”, trazem uma persona mais leve e introspectiva, com acordes rock que trazem uma vulnerabilidade de uma artista fragilizada lidando com sentimentos mais fortes como tristeza e amor. “BLUE!” é uma faixa mais marcadinha e sing along, enquanto “Balloon In Love” aposta em um instrumental mais limpo com a proposta de se deixar levar pelos sentimentos que a faixa desperta ouvindo. As duas músicas funcionam para a parte mais vulnerável do álbum (Obviamente a segunda metade do álbum servirá o rock de banda de garagem mais sensível que parece ser a principal personalidade sonora da Sunmi hoje), mas acho que fiquei mais encantado com elas sendo single mesmo. Dentro do álbum, as duas músicas perdem um pouco de brilho depois de tanta faixa mais expressiva na primeira metade.
“Happy af” realça a necessidade da Sunmi em ter um motivo para ser feliz, e esse motivo é VOCÊ. Ela achava que não, mas agora sabe que é VOCÊ que a completava, numa espécie de desabafo de uma mulher que tentou seguir em frente mas não conseguiu. A tristeza que a música traz me desperta uma sensação de que essa música pode ser a Sunmi falando “Não é a coisa certa, mas nesse momento só quero me sentir feliz” e mostrando um certo descontentamento em perceber a dependência em outra pessoa para se sentir bem, mas pode ser eu enxergando demais em uma música onde a Sunmi só quer de volta aquele que a deixou e fazia ela se sentir bem. Mas só de querer saber o que se passou na cabeça dela compondo isso já faz de “Happy af” a minha favorita da 2ª metade do álbum.
“Walking at 2am” amplia essa saudade da cantora pela pessoa amada enquanto ela resgata memórias dos tempos onde ela e o amor andavam juntos por aí, em um inesperado porém charmoso R&B. Minha questão com essa música é que não acho que a Sunmi tem um vocal “certo” para esses números elegantes e polidos demais, então por melhor que seja eu acho que um vocal mais robusto servindo de parceria ali na segunda metade dos versos ficaria melhor e mais chamativa do que a Sunmi fazendo tudo sozinha. O R&B mais melancólico e essa sensação de que poderia ter um vocal a mais para ajudar a cantora continuam em “Bath”, mas essa segunda eu já achei que a Sunmi conseguiu sustentar melhor (Provavelmente pelo instrumental com mais banda e uma leve energia city pop mais melancólica que dá mais certo com ela). Fechando o álbum temos “A long long night”, uma baladinha no piano com sons de vento ao fundo, com a Sunmi praticando a arte de deixar ir. A segunda metade com a banda entrando e a guitarra chamando a responsabilidade do instrumental surpreende, mas não combina com o que foi criado na primeira metade da música e soa aleatório. Esse final de álbum por um lado é inesperado e chamativo para a Sunmi num primeiro momento, mas não é nada que me faça querer ouvir de novo e faz o “HEART MAID” perder o fôlego.
Concluindo…
“HEART MAID” é um 1º álbum sólido, competente e adorável, com camadas e personas que mostram a força da Sunmi como uma artista de sonoridade única, e espero que a carreira dela dure mais 12 anos para o 2º full album ser ainda melhor.
Minhas expectativas são sempre altíssimas com a Sunmi porque admiro MUITO ela como artista. Então, depois de 6 anos de promessas, eu esperava O álbum… e recebi um banho de água fria.
Cynical nada mais é que uma Stranger 2.0 (menos esquizofrênica, mas quase tão fraca quanto), rockzinhos de garagem inofensivos como singles e b-sides que não fedem nem cheiram (com exceção de Mini skirt, que é uma graçaaa!)… Assim fica difícil defender a mãezinha.
Vou continuar fazendo de conta que o WARNING é o verdadeiro full da comadre (mesmo sendo um EP).