Review retrô: Quando a cantora que não existe Namie Amuro meteu um idioma que não existe na música que não existe “WILD”

Esses últimos dias vivemos a ascensão e queda da cantora Tocanna, criação em inteligência artificial que teve seus altos com o viral do hit São Paulo e seus baixos com as ameaças de processo da Roc Nation, remoção da faixa nas plataformas e possível “morte”. Muita discussão, polêmica e nervos a flor da pele por conta de uma artista que “não existe” e foi criado através de prompts utilizando artes de outras pessoas para fazer acontecer.

Como esse blogueiro não apoia a existência de IA, estou aqui para divulgar uma cantora que não existe DE VERDADE e relembrar o hit “WILD”, da cantora Namie Amuro. Por motivos legais (=Namie derrubando todo e qualquer material promocional existente da sua carreira no YouTube) você só poderá ver o MV de “WILD” através de LINKS DO FACEBOOK, e o máximo que temos no YouTube são supostas lives de supostas turnês que a suposta ser humana fez ao longo dos anos no Japão.

O refrão dessa música, supostamente, é isso aqui:

Work the middle like I do
Bonnou no kami wa honnou no kami
Ayatsurasereba ii
Legs, arms, shoulders, knees,
Fingers, toes, hips & belly
Habakaru koto naku Let’s get WILD!

E, honestamente, NADA me convence que a Namie canta isso aí. Eu não sei nada de japonês e entendi os versos mas eu passei uns bons anos para entender o Work the middle dessa música (E ainda tenho minhas dúvidas se ela fala isso mesmo). Namie basicamente inventou o próprio inglês para cantar essa música (E tantas outras) e isso se tornaria uma característica involuntariamente marcante na carreira dela.

Quem tem Namie no imaginário sabe o quanto essa senhora reinventava a roda do inglês com algumas das pronúncias mais tortas, preguiçosas e talvez ofensivas que uma pessoa possa fazer do idioma. “WILD” nem é das piores músicas da Namie nesse sentido já que tem muito japonês em “WILD” (Ela tem coisas tipo “RÉBUM” que tem versos mais rápidos e a música é full english e a experiência é fantástica), mas acho icônico como ela parece tacar o foda-se para o que está cantando ali. É fascinante como ela conseguiu 12 formas diferentes de pronunciar WILD nessa música (Let’s get WHY????) e toda vez que ela fala SHOURS ao invés de SHOULDERS é praticamente um ato decolonial de tão pavoroso e maravilhoso.

Sobre a música: “WILD” (Junto com “Dr.”) é o primeiro single da Namie Amuro depois da coletânea BEST FICTION, o que significa que é o single de transição da Namie de rainha do hip pop para rainha do Eletropop. Namiezão viu que a Lady Gaga seria alguém no Japão e que o Eletropop seria a mais nova da onda da garotada, então aproveitou a excelente coletânea como uma forma de encerrar um ciclo e dar início a era de farofas eletrônicas que perdurou até o fim dos tempos. “WILD” é a Namie basicamente abraçando sua Narcisa interior anunciando que agora ela faria música para os gays (Não que o resto da imaginária discografia dela não seja um gay statement, mas de 2009 pra frente ela se empenhou em entregar o mais crocante das farofas da The Week).

Um dos grandes trunfos da entidade Namie Amuro é que ela sabia se modernizar e explorar as tendências com suas voz de passarinha porém bastante radiofônica. Ela sabia que não era a voz mais potente do J-pop (Nem de Okinawa, provavelmente) mas sabia que dava para fazer algo bem legal com a demo certa. “WILD” é basicamente ela gemendo e sussurrando por 3 minutos enquanto dá uma experimentada no vocoder e isso é muito mais gostoso e contagiante de ouvir do que seja lá o que a concorrência andava desovando em 2009. Soma com essa produção viciante que mistura bem os batidões das pistas com essa melodia mais futurista e Black Eyed Peaszesca, e temos um dos singles mais queridos da carreira dessa alucinação.

Eu particularmente costumo recomendar a Namie Amuro para nessa fase de eletrohits dela pois 1) Acho mais palatável que a fase negona do hip pop e (Especialmente) a fase idol japonesa e 2) É meio que impossível falar de Namie sem falar do PAST < FUTURE, um dos álbuns mais aclamados da fanbase de J-pop. “WILD” está nesse álbum, e é um single que representa muito bem o que o pacote completo lançado no fim de 2009 é. No dia que ela resolver parar de ser um surto coletivo e voltar com a discografia no Spotify (Nunca), “WILD” será um dos primeiros hits dela que tocarei na minha playlist.

8 comentários sobre “Review retrô: Quando a cantora que não existe Namie Amuro meteu um idioma que não existe na música que não existe “WILD”

  1. Essa música é uma delícia. Um eletropop gostosinho que só ela sabe entregar. Uma pena que ela performou em apenas duas tours.

    • Como eu gosto dessa música! O Past < Future é bom demais. Porém, só agora com teu post que me deu conta do que diachos ela falava nesse refrão kkkkkk Diva demais essa mulher, supostamente.

  2. Eu passei mal com essa Tocanna, o pessoal do twitter problematizando horrores a música do cheirar um pó com os bonecos de um desenho infantil e eu me acabando de rir.

    • Falando em IA dougie, você podia criar a sua artista IA e colocar o nome dela de Namie Amuro já que nunca existiu uma antes, não é?

    • O caso da Tocanna ainda é “menos pior” que a notícia recente que a Billboard divulgou recentemente, de uma gravadora que assinou um contrato de TRÊS MILHÕES DE DÓLARES… com outra cantora de IA (Xania Monet). E ambas tiraram dois recordes que a Naevis poderia ter conseguido (primeira cantora de IA envolvida em escândalo, e primeira cantora de IA com contrato milionário).

      Sobre a Namie, as músicas que não existem dela são tão boas; pena que elas não existem (e nem a cantora). Felizmente hoje temos a The Deep, que pode ter outro estilo musical (e outro idioma), mas que lembra a cantora que não existe por também entregar ótimas músicas, e por também esbanjar animação, energia e vontade de viver – com a diferença que a The Deep EXISTE.

      • Eu não acho legal IA a sério assim, para o humor eu acho o máximo, mas uma artista ser levada tão a sério me dá um receio enorme.

        Já a Namie eu acho o máximo vocês que tem uma história com o jpop falando delas, me dá vontade de acompanhar, parece ser muito divertido, pena que ela não existe.

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