Review Retrô: Quando a Gain explicitou violência doméstica, relacionamentos abusivos e abuso sexual para o público de K-pop com “Fxxk U”

Eu não esperava receber um Pix para fazer um review retrô de uma música da Gain, ainda mais de “Fxxk U” que nem é uma das canções assinatura dela. Mas fiquei feliz em saber que tem fãs de Brown Eyed Girls que acompanham esse blog e estão dispostos a me financiar para aclamar todo santo trabalho delas casualmente, então vamos falar desse que era para ser um simples pré-lançamento do 3º mini álbum da Gain, mas se transformou em um dos trabalhos mais controversos por sua mensagem explícita, crua e que testa qualquer limite que a fanbase e o público coreano tinha com o tabu que é falar de um relacionamento abusivo:

O Brown Eyed Girls é um grupo muito importante não só no K-pop como na K-music como um todo, pois era o único grupo que explorava e testava os limites do público coreano e isso ampliava as possibilidades do que uma artista feminina poderia fazer, uma vez que ninguém iria tão longe quanto o Brown Eyed Girls. Isso não só na época do auge do grupo, mas também hoje em dia com grupos e artistas colocando mensagens mais densas, que geram debate em seus trabalhos. O BEG, tanto em grupo quanto em seus trabalhos solo, explorou muito bem isso: Músicas menos óbvias com mensagens transgressoras e progressistas, e vídeos que seguiam o mesmo embalo navegando por todo o universo da mulher adulta, e abordando questões que um gênero tão adolescente quanto o K-pop não costuma explorar. Ajuda o fato do BEG ser um grupo de idade mais avançada para um grupo de K-pop (Tirando a Gain, as integrantes já estavam na casa dos 27, 28 anos quando estouraram), mas foi um grupo maduro extremamente necessário para ampliar os limites do que o coreano pode ver.

“Fxxk U” da Gain é um belo exemplo disso. O vídeo retrata violência doméstica, relacionamento abusivo e abuso sexual de forma totalmente crua e explícita. Facilmente considerado longe demais para uma artista de K-pop fazer, mas a Gain foi lá e fez da forma mais artística possível. Talvez não da forma mais clara (Lembro das controvérsias da época do lançamento só irem para o lado sexual e não explorarem a obra com toda a sua mensagem), mas de uma forma que quem passou pelas situações que a Gain passou no vídeo se identifique com a obra e tenha uma visão mais crítica. Quando eu tinha 17 anos e vi esse MV pela primeira vez tinha uma visão totalmente superficial e inexplicavelmente desconfortável, mas hoje, com 25 anos e todas as experiências que passei + os debates de coisas que eram consideradas tabus na sociedade, entendo esse desconforto e o propósito dele, pois é um MV feito para você questionar e refletir suas submissões dentro de um relacionamento.

As submissões em “Fxxk U” são mostradas em diversos níveis, passando por violências físicas até manipulação emocional, trazendo uma Gain cansada do relacionamento tóxico e falido, mas presa pela obsessão do seu cônjuge, que a controla das mais diversas formas para segurá-la em seu domínio. É um vídeo com uma história delicada que não é tão fácil de ser contada, mas foi tudo muito bem feito e interpretado pela Gain e o Joo Ji Hoon, e considerando que o K-pop não é muito bom com sutilezas, acho que todos os detalhes desse vídeo são certeiros para não cair na má representação de um relacionamento abusivo. Nada é romantizado em “Fxxk U” pois é um vídeo adulto e não é polido para adolescente kpopper ver e achar fofo. “Fxxk U” é explícito, forte, intenso e genial em sua execução.

Com tudo isso do MV, a música até fica de segundo plano mas também é muito boa e complementa muito bem a história do MV. “Fxxk U” é um pop/R&B bem trabalhado na sutileza, com um violão conduzindo a música e os vocais suaves da Gain sendo envolventes ao mesmo tempo que entregam um sentimento de frustração e caos emocional. O rap do Bunkey é bom, mas digamos que não sou um grande fã da voz mais esganiçada dele e destoa um pouco da música. Apesar disso, “Fxxk U” é uma música intensa omde você entra no mundo que a Gain cria e sente todo o desconforto e depressão que a Gain quer passar com essa música, sem perder todo o charme mais maduro e a melodia envolvente que é característico em todo trabalho da Gain. “Fxxk U” é a grande pérola carrega esse mini-álbum que eu considero o mais fraco da Gain.

“Fxxk U” é uma música que dificilmente será vista no K-pop novamente, e essa ambição em entregar algo extremamente único e progressista justifica o fato do Brown Eyed Girls ser um dos grupos mais queridos do K-pop. Além de conversar com um público mais adulto que normalmente não é tão amistoso com as batidas pop adolescente de um K-pop comum, ainda se torna atemporal pois os adolescentes crescem e conseguem interpretar músicas como “Fxxk U” de um jeito diferente e mais marcante. “Fxxk U” não é um trabalho feito para te agradar com batidas fáceis e vocais vibrantes, mas que te conecta para você enfrentar todas as dependências emocionais que você possui de uma forma cruel e agressiva. Não é a minha música favorita da Gain, mas ainda tem mais impacto do que boa parte do K-pop tenta ter.

Esse post foi patrocinado pela leitora Yasmin, que me deu 15 reais para fazer esse post comentando sobre Fxxk U da Gain. Se você quiser ajudar esse blogueiro a pagar as contas e a cachaça do fim do dia em troca de algum post safadíssimo sobre algum trabalho do asian pop, pode mandar um PIX com o valor que seu coração achar que eu mereço para a chave: dougielogic@gmail.com. Você também pode seguir o Pop Asiático,jpg no twitter (@popasiaticojpg) e no instagram (@popasiaticojpg)

3 comentários sobre “Review Retrô: Quando a Gain explicitou violência doméstica, relacionamentos abusivos e abuso sexual para o público de K-pop com “Fxxk U”

  1. A financiadora desse post se sente grata hahahahaha Tava só ouvindo velharias outro dia e derepente me deparei novamente com fxxk u e foi engraçado pois eu tive a exata experiência que você descreveu no post:

    Na primeira ouvida que eu tive dessa música, nova demais pra entender como relacionamentos funcionam, eu só fiquei chocada com as cenas sexuais (principalmente a centopeia humana do banheiro) mas naquele dia recente eu finalmente consegui entender que o desconforto real que ele traz é na forma explícita que ele retrata como é se sentir num relacionamento manipulador e narcisista.

    Começei a associar as cenas com experiências próprias e fiquei pistola por esse trabalho nunca ter recebido o reconhecimento que ela merece (mesmo a música sendo o elo mais fraco ainda é bem bom), brigada por enaltecer essa pérola negra na indústria esterilizada do k-pop!

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